5 set 2014

As relações de poder entre a Igreja e o Estado

Autor: wp-admin | Categoria: Estudos, Evangelicos

Em ano eleitoral cabe uma reflexão a respeito do poder secular e a sua relação com a Igreja Cristã. Há anos cresce o número de candidatos que postulam a representação dos cristãos sob o argumento de que cabe a eles o dever de frear o avanço do secularismo e impedir a criação de leis que prejudiquem a Igreja. Não são poucos os que se manifestam a favor ou contra esse movimento que tem colocado entre a pauta de prioridade de grandes denominações evangélicas o lobbie político.

As Escrituras não se omitem quanto a essa questão. Um dos textos mais provocativos nesse sentido é a descrição que Lucas faz do diálogo entre Jesus e o Diabo, no deserto: “E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu.” [Lucas 4:5-7]

Observe que o Diabo afirma sem titubear que ele tem esse poder e pode dá-lo a Jesus e a quem quiser adorá-lo. Embora Jesus tenha afirmado tempos depois a Pilatos que nenhum poder ele (Pilatos) teria se de cima não lhe fosse dado (Jo 19.11), nesta oportunidade Ele não desmente a Satanás e responde: “Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”. [Lucas 4:8 ].

Como entender então o diálogo entre Jesus e Pilatos? Ou ainda as recomendações neotestamentárias: “orem pelas autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus!” Um texto nega o outro? Existe contradição na vontade do Senhor?

Não me parece que seja isso. Na passagem de João, Jesus declara o óbvio: o Senhor é soberano sobre todas as coisas. Mas isso não significa que seja vontade de Deus constituir autoridades seculares. O seu desejo é que venha a nós o seu Reino e que ele reine sobre a humanidade.

No deserto, o que estava em questão era a quem deveria ser dirigida a adoração, por isso Jesus esclareceu que só é possível adorar ao Senhor, só a Ele. Não havia necessidade de desmentir a Satanás quanto à sua influência secular. O Império Romano e a adoração pública a César e a Augusto, não deixam dúvida de que o Diabo dizia a “verdade”. A tirania e a perseguição aos cristãos durante os primeiros séculos da era cristã falam por si só.

Uma outra questão a ser levantada é se esse poder secular foi transferido depois a alguém, ou, dito de outra maneira: Satanás abriu mão do seu poder secular? O transferiu a alguém? Hoje ele continua a governar como príncipe deste século? O Estado personifica esse principado?

A essas perguntas devemos responder honestamente que ele continua o mesmo. Mesmo se olharmos para os quase mil anos em que a Igreja dividiu o poder civil com a monarquia, temos que concluir que pouca ou nenhuma influência benéfica a liderança do clero causou sobre a sociedade. Pelo contrário, à exceção das primeiras mudanças sociais ocorridas nesse período, como o fim das crucificações, a proibição das lutas entre gladiadores e a repressão ao infanticídio – para citar algumas, o legado administrativo deixado pelos papas é altamente reprovável.

Diferentemente ocorre quando olhamos para a contribuição que o cristianismo ofereceu ao mundo ocidental na educação, nas artes, nas ciências e até no trabalho, mas tudo isso de modo indireto, sem necessidade de tomar o poder para influenciar a sociedade.

É por isso que, sobre o poder civil e secular, Paulo reafirma que Satanás o detém, e que não é manifesto totalmente e fica detido (o Anticristo, que será um líder político) enquanto o Espírito Santo estiver aqui na terra (2 Ts 2.6-7). Enquanto isso, os governos civis continuam perseguindo os cristãos e será pior até o fim dos tempos.

A propósito do debate entre a secularização da sociedade e o laicismo, o cristianismo tem sido constantemente oprimido de modo que não há dúvida sobre quem detém o poder secular ainda hoje e mais, quem ele representa. Ele se manifesta através dessa ideologia laica e está presente também nas autarquias e outras instâncias. E essa perseguição costuma ser dirigida somente à religião cristã, principalmente no que toca ao caráter imutável de suas crenças e doutrinas sob o argumento de que o cristianismo seria uma religião que não evolui e a Bíblia um livro antiquado, que pouco ou nada aportaria à cultura moderna. Grosso modo, a declaração dos direitos humanos substituiu os valores morais cristãos.

Mas, por outro lado e na prática, existe uma bancada evangélica que cresce a cada eleição e a pergunta que é feita é a seguinte: a Igreja precisa de líderes cristãos nas casas legislativas? Isso é, segundo a Bíblia, missão da Igreja? Ou a Igreja esqueceu Zacarias 4.6, que diz: “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”.

Não nego que a atuação de alguns parlamentares cristãos, como cidadãos, podem até ser válidas, mas as palavras de Jesus continuam atuais: “daí a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”. Nelas reside o princípio de separação entre a Igreja e o Estado e que deve servir de orientação para nosso tempo. A declaração “meu Reino não é deste mundo” não nos ilude quanto à verdadeira posição da Igreja neste século.

Contrariar essa verdade significa não discernir os tempos e as estações e ignorar os eventos previstos no livro de Apocalipse que não deixa dúvida quanto à origem e o significado das duas bestas que combaterão contra a Igreja. De modo que, conforme a parábola do trigo e do joio, na qual Jesus explica que um inimigo semeou a má semente junto à boa e que juntos crescerão – trigo e joio – até o dia da ceifa, o trigo deve ter presente o significado de “meu Reino não é deste mundo” porque ao líder do joio (Ap 13) já está reservado o fogo e o enxofre na presença dos santos anjos e diante do Cordeiro (Ap 14.10).

 

Fonte: http://estudos.gospelprime.com.br/relacoes-igreja-estado/

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